A briga com a disciplina

Eu nunca fui muito disciplinada. Sempre fui educada a ser correta, coerente e o mais próximo de alguém bacana, segundo os valores familiares. E funcionava. Disciplina, e tudo o que ela representava para mim, porém, parecia sempre um problema. Hora certa pra acordar, hora certa pra dormir, rotina de tarefas, temas de casa, enfim, tudo parecia penoso demais aos meus questionamentos e momentos de reflexão. O tempo passa e aprendi a ser um pouco mais disciplinada, até porque a vida adulta ensina que sem isso, não vamos muito longe. Ainda assim, a palavra mesmo me trazia percepções de controle, rotina, chatice até. Tudo o que eu não queria.

Foi quando chegou às minhas mãos, nos idos de 2008, 2009, por aí, o livro Manual da Disciplina para Indisciplinados, da querida Dulce Magalhaes, uma das pessoas que mais admiro neste mundo, e a quem já tive o prazer de dizer isso pessoalmente. Livro com cara de inocente, pequeno, pensei em lê-lo em um final de semana. Ledo engano! Levei algumas semanas para assimilar tudo que me mostrava cada página. Na apresentação, já de primeira, a constatação que a disciplina é um “estado de si pleno”, um processo de ampliação de autoconsciência. Que a verdadeira disciplina é a unidade entre o pensar, o querer, o sentir e o agir. Imediatamente lembrei de um dos meus maiores ídolos: Renato Russo, da saudosa Legião Urbana, cantarolava que “Disciplina é Liberdade” e eu nunca tinha concordado. Esse cara era mesmo sábio!

Ampliando o sentido da palavra disciplina, lendo o livro e escutando Renato Russo mais do que nunca, entendi o quanto e porque fugimos tanto (ou nos aproximamos tanto) da disciplina. Disciplinados, cientes de nós mesmos, unidos entre o pensar, sentir, querer e agir, como no livro, que fortemente recomendo, seremos muito mais de nós do que conseguimos imaginar. Disciplinados no trabalho, estaremos livres para fazermos o que amamos e literalmente aproveitarmos cada momento do nosso lavoro. Disciplinados nas relações, cientes de quem somos, temos muito mais chances de oferecermos ao outro o mais verdadeiro de nós mesmos, ainda que em construção, sempre. Seremos quem sabe mais empáticos e simpáticos aos olhos do outro, para viver em grupo momentos mais harmônicos, neste mundo que parece cada vez mais bizarro. Disciplinados no amor, ciente de tudo e de todos que interagem conosco, bem como da nossa interferência nas emoções do outro, temos a chance de sermos, quem sabe, mais livres para amarmos e sermos amados, sem punições nem culpas, sem medo, sem planos furados que costumamos erroneamente chamar de disciplina e planejamento. Até porque, convenhamos, pouco se consegue planejar no que diz respeito ao que sentimos. Finalmente em paz com a palavra, disciplina parece a mim hoje muito mais do que regras, molduras e método: buscar a si mesmo, o tal estado DeSiPleno, é um processo de construção para a vida. Viver o agora, exercitar a consciência permanente, é mesmo um grande exercício. Requer olhar para si, prestar atenção, aceitar tudo o que é bom e o que não é também. É, amigos, não é fácil, mas vale cada dia avançado. Um passo de cada vez. Melhor hoje do que ontem, e ainda menos do que amanhã.

 

*Publicado originalmente em www.mood.com.br