Empreendedorismo Feminino E A Importância De Honrar A Jornada

Falar de empreendedorismo feminino é sempre um desafio. Temos bons exemplos, mas ainda são poucos, em contraponto a tantas mulheres que batalham no seu dia a dia anonimamente. Eu diria que muitas delas nem se dão conta do quanto empreendem diariamente.

Eu, por exemplo, nunca racionalizei que queria ser uma empreendedora. Esse me parecia o único caminho.

Quando tinha 11 anos, decidi que seria independente e avisei à família que dali em diante, não precisaria mais de mesada. Lembro até hoje do meu pai rindo, porque obviamente deveria ser uma cena, no mínimo, engraçada. Lembro também do meu incomodo e da força que isso gerou para o meu “negócio”, onde eu e uma amiga fazíamos adesivos com desenhos do Snoopy com contact. Na época ainda não havia computadores nem impressoras nas casas, então nosso negócio era um sucesso. Passamos a identificar os materiais escolares dos colegas e chegamos a pensar em uma empresa de decoração de festas. A melhor lição foi perceber que o nosso próprio esforço gerava dinheiro.

Logo depois, aos 12-13, quis revender joias folheadas a ouro. Fui até a revendedora, uma mãe de aluno da escola, e me apresentei. Não sei se por pena ou se por curiosidade, ela confiou em mim e me deu um estojo para experimentar a venda. Mal sabia ela que eu ficava uma hora inteira do lado de muitas mães, quando acompanhava minha irmã mais nova na ginástica, momento em que eu vendia absurdamente depois que descobriram que não era a minha mãe e sim eu, quem estava vendendo. Pelo inusitado ou pela dedicação, minha lição foi que:

Simpatia e transparência abrem muitas portas.

Vendi muito, trabalhei um bom tempo com as joias e aprendi a fazer outras. Nesse momento, lá pelos 14, decidi que trabalharia com moda e criei uma estratégia: estudei corte e costura, modelagem e estilismo, à noite, após a escola. Com 16, já desenhava para algumas pequenas empresas.

Não havia, porém, curso de moda naquela época no RS, e dadas as negativas da família de ir a São Paulo, as quais por respeito acatei, fui para a publicidade, onde descobri que comunicar corretamente também gera resultado. Meu TCC, obviamente sobre moda, fechou meu ciclo e abriu uma nova fase no mercado corporativo.

Já atendia alguns clientes e o caminho natural era ter um pequeno negócio na área. Tive uma Sócia, batalhamos muito, caímos muitas vezes e acertamos muitas outras. Trabalhei sozinha um tempo também e em determinado momento, resolvi aceitar que este nunca tinha sido meu sonho de trabalho.

Descobrir que “trabalhar no que se ama” é possível não é tão simples quanto as palestras dizem, ainda mais há 20 anos, quando produzir e gerar dinheiro era realmente mais significativo. Fechar uma empresa que dava resultado era quase uma vergonha, mas meu pai, empreendedor desde sempre, apoiou minha decisão, mesmo sem saber o que eu faria dali pra frente.

O caminho até descobrir a área de treinamento e minha vocação para dar aula não foi simples. Fui para o marketing de algumas empresas, me candidatei a vagas de propagandista de medicamentos a atendimento de logística, porque sabia que parada, iria enlouquecer.

Até que um dia, uma pessoa muito especial que trabalha em RH me sugeriu que eu seguisse o que eu adorava fazer, mesmo que o caminho fosse longo. Isso me brilhou os olhos e fui desenhando uma trilha de conhecimento, até achar que estava pronta, ao menos para começar.

Novamente:

Trabalhar com amor abre portas mas não traz nunca facilidades.

Tive condições de aprender, apanhar e descobrir uma competição desnecessária numa área em que a colaboração deveria ser regra. Muitas vezes minha candidatura a alguns projetos foi negada por não ser um
homem o titular da empresa ou o gerenciador do projeto. Muitas vezes, me entristeci vendo mulheres usando a questão do gênero de forma abusiva ou antiética.

Aprendi mais uma lição: ética e aprendizado são patrimônios de uma vida inteira.

Já se vão 20 anos, completados em 2017. Foram muitos tombos, muitos anos e muitos aprendizados. Muito amor também, em cada projeto e a certeza de que a trilha estava certa. No meio do caminho, o reencontro com minha primeira chefe (a das joias) me rendeu contratos só a partir do seu testemunho. Carreira é mesmo patrimônio e cada passo é um degrau que estamos alcançando. O mundo é redondo e sempre encontramos, querendo ou não, pessoas que fizeram parte da nossa vida.

Empreender não é e nunca foi tarefa fácil. Sendo mulher ou não, os desafios existem e muitas vezes caímos na armadilha de usar nossa fraqueza como nosso melhor repertório. É importante que nessa reflexão sobre o empreendedorismo feminino, lembremos de aproveitar as características femininas como habilidades no desenvolvimento de nossos projetos e não como obstáculos, como arsenal de uma guerra que não existe. Discutir gênero e empoderamento mesmo é entendermos que a “briga” nunca foi de homens contra mulheres, mas de gente contra gente. E este desafio sim, deve ser trabalhado à exaustão em nossas relações pessoais e profissionais.

 

*Publicado originalmente no site www.jogodedamas.me